Terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
Terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
— É o problema, Clarice! Este é o problema de todos nós. Você é desinteressada por todos, mas odeia a solidão, por quê? Eim? É tão complicado ter uma pista calma onde se pode estacionar sem grandes problemas, ou deixar de acreditar que tem como ser melhor e simplesmente viver essa merda toda?
Clarice me afogava com os olhos, mas indignação é cegante e radical enquanto se sente. Eu a encarava com os olhos bem abertos, esperando uma resposta para uma pergunta que eu mesmo não sabia responder. Mas ela só molhava mais suas caras em puro e alto silêncio, como se quisesse sumir daquela cama. E eu: tremia por dentro; engolia aquela amargura de pré-vômito que a ansiedade causa; um desespero desproporcional.
— Não é assim Magnus! Eu quero você, eu quero, mesmo! Mas não é como parece— eu não sei o que eu preciso, mas sei que preciso que entenda isso de uma vez por todas!
— Ora, Clarice, não fode! Não sabe um caralho, você PREFERE não saber, não quer abrir mão de uma, pois a outra é gostosa também, não é? Não finja indecisão!— respirei fundo e abaixei a voz.
— Olha, estaria tudo bem com isso, caso você não tivesse falado tanto que essa porra iria ser séria... Que seria só nós dois. Eu gosto dos dois também, mas eu abri mão. Eu abri mão daquilo que você disse que entre nós não íamos rolar, então me explica com convicção do porquê de eu estar aqui, 1 ANO DEPOIS, ouvindo de você, "eu ainda não sei o que eu quero"?
Ela apenas me olhava, as lágrimas marcavam seu rosto pálido e rosado, dos olhos até as pontas dos lábios. Sem ódio, tristeza ou confusão nos olhos, apenas me olhavam, fixamente da boca aos olhos, dos olhos a boca. Curvada, mas ainda me olhava, ela levantou com toda calma do mundo e segurou as pontas dos meus dedos com os seus. Era suave, mas trêmulo, continuava me olhando enquanto me tocava os dedos, a mão, os ombros e cintura. Seus olhos jaziam úmidos e com o brilho mais neutro que já vi. E eu também a olhava, cabisbaixo, os olhos vazados e as sobrancelhas ao léu. Clarice beijou meu nariz, segurou meus cabelos com as duas mãos e saiu pelas minhas costas. Não virei, fiquei parado ali, ouvindo seus passos até a porta, a porta se abrindo e se fechando. Ela se foi, e eu nunca havia me despedido antes, pelo menos não em definitivo. Pois eu sabia que dessa vez aquele rosto jamais seria familiar para mim pessoalmente. E realmente, eu nunca mais a vi depois disso. E nunca mais vi alguém como Clarice, como se uma raridade se despedisse da incompletude, raridade não se perde em indefinições. E ali... Ali eu soube disso. Lembro-me de uma frase da Bíblia, "Amanhã Estarás Comigo No Paraíso.", E um dia eu certamente acreditei que isso viria de Clarice. Mas eu nunca vi o paraíso.
M.
[Republicação: Postagem original em 28/04/2022, no Blog Thenowhereroom, link do post original: A Rendição Condicional de Clarice].

