Caroline, e Um Momento de Ponderação

 

09 de Abril de 2023





Contornei a avenida, estava frio e úmido, e nublado em todos os sentidos, as nuvens estavam tristes, os prédios e as casas, as ruas e os carros, eu estava triste, mas com isso o universo sempre estava contando. Era de manhã e isso tornava todo aquele momento incrível e belo (apesar de triste. Eu gosto da atmosfera melancólica), a alguns quarteirões havia um bar de bairro, dos menos atraentes em questão de personalidade e menos ainda em higiene, mas os bares de região são os melhores se o que você busca for uma bebida, sinceridade e honestidade sentimental.

 
Fui até aquele bar, atravessando rua por rua, calçada por calçada e sinal por sinal. Logo à porta, havia um cartaz que dizia haver uma promoção de uma cerveja que gosto muito, entrei e sentei na mesa mais isolada possível, uma de canto. O bar era estranhamente fundo, escuro e arejado, atrás de mim havia uma parede de madeira com quadros, os quadros guardavam impressões de jornais paulistas antigos, pelas datas, cinquenta anos atrás. Apoiei minha bolsa na cadeira ao lado, puxei os fones de ouvido das orelhas e deixei que minha mente fosse regida pelos carros e ônibus passando na avenida. Pedi uma rodada de quatro cervejas, ainda tinha metade do meu almoço na bolsa, um pão de calabresa daqueles bonitos de padaria, estava murcho mas o comi restante com gosto. Eram duas tarde, e eu só queria a minha cerveja, a minha paz e a minha vida. O resto era resto.

De alguma forma existia algo bom dentro de mim, uma reconfortante e macia felicidade, deslizando por entre minhas amarguras e fazendo do dia algo um pouco menos medíocre e sem gosto. Após três rodadas de quatro cervejas eu paguei a conta e me mandei para casa, estava chovendo, mas fiz questão de caminhar por cada quarteirão calmamente, olhando os rostos a minha volta, os reflexos nas poças d'água. Na portaria eu dei boa tarde a porteira nova no condomínio, ela não me respondeu, fui até o meu apartamento e girei a chave na porta, eu estaria sozinho pelo resto do dia até me levantar, e acordaria sozinho também. Não moro sozinho, moro com a mamãe, mas ele vive trabalhando então nunca está em casa, se não fosse o caso definitivamente eu não beberia o tanto que bebo, pois ela não deixaria. Tranquei a porta, tirei os sapatos e levei minha bolsa para meu quarto, fiquei pelado e fui para o chuveiro. Estava anoitecendo, e aos poucos, a felicidade urbana era completamente ofuscada pela escuridão da ausência de nossa estrela, e não havia nada para eu reclamar. 

As horas passam devagar no anoitecer, as estrelas surgirem bem devagar, são poucas pois estou em uma cidade totalmente tomada por poluição ambiental e luminosa,  em estado de superpopulação, não há muito ar virgem sobrando por aqui. As janelas assobiavam e se assumia cada vez menos luz na casa, e pouco a pouco, a escuridão se misturou com a minha, e nem se quer um barulho era capaz de denunciar que havia vida dentro de casa, pois não havia. Resolvi ligar para uma amiga, Caroline, a conheci no metrô enquanto estávamos parados na linha Azul de São Paulo, pois um homem velho havia se jogado nos trilhos e o carro não poderia andar até que tudo fosse reformado a como se encontrava, pois ele havia se matado. Caroline é magra e tem cabelos completamente pretos. A convidei para ir em casa e ela aceitou, às nove horas a minha campainha soou e ela havia chegado. Ao abrir a porta, lá estava ela, cabelos negros e curtos que combinavam com seu coturno negros tanto quanto, seu sorriso me despertou de meu transe diário, a convidei para entrar e pedi que tirasse seus sapatos, aí está a primeira peça de roupa retirada na noite. Ela estava linda, de suéter cinza com alguns padrões em laranja, uma calça de moletom cinza só que em um tom mais claro que o suéter, suas mãos magras tinham alguns anéis e uma linda tatuagem fina de um raio na mão direita.
— Está frio, quer um vinho?, disse eu. — Sim, disse Caroline. Caroline não fala muito, e é importante mencionar isso pois não haverá muitas falas dela por aqui, mas seu tom sai sempre com mais emoção do que quantidade de palavras. Eu também não falo muito, mas sou a única alma capaz de narrar a minha própria história. Ela foi até até a poltrona no canto da sala, sentou e começou a me olhar. Eu estava no balcão nos servindo o vinho em copos pois quebrei até as taças que não eram minhas. Levei o vinho até ela e sentei-me no sofá com meu copo e a garrafa de vinho. — Então, como vão as coisas Heitor? (Eu sou Heitor), Não nos vemos a um tempo. — Nada tão diferente do comum, mamãe continua trabalhando muito e meu irmão ainda está morando muito longe, não tenho muito o que fazer depois da escola. — E você? Disse eu. — Nada muito incrível, mas não tenho do que reclamar além do de sempre, minha mãe não sabe ainda se vai voltar com o meu pai ou não, ele não está mais morando com a gente mas quando volto do trabalho as vezes ele está lá, conversando com a minha mãe. As minhas irmãs saíram de casa, estão morando a alguns quarteirões daqui, perto da avenida, também ando bastante sozinha, disse Caroline, bebendo um pouco do vinho e puxando as mangas do suéter para cima. — Como vai o trabalho? Está dando conta dele e da escola?— Não muito, ando bem cansada, mas tenho meu dinheiro agora então está bem, disse ela sorrindo. Seu sorriso é lindo, toma grande parte de seu rosto e forma covinhas nas bochechas. A olhei com um meio sorriso e bebi um belo gole do vinho, depois me virei para a janela, estava escuro e havia uma grande quantidade de carros deslizando na avenida, e chovia bastante.

Caroline se levantou e se sentou do meu lado, também olhando para a janela. — Quer ouvir algo? The SmithsWinter AidAgnes Obel? Disse eu, a tocando no ombro. Ela concordou com a cabeça, — O que você prefirir. Logo tocou Unloveable do The Smiths na caixa de som, debaixo da TV, e enchi nossos copos novamente. As luzes estavam baixas, apenas a luz da cozinha nos iluminava, e de algum modo a atmosfera melancólica estava três vezes pior. Caroline parecia calma, no entanto, triste. Toquei novamente em seu ombro, — Você está bem mesmo? Ela me olhou, sorrindo, puxou as pernas para cima do sofá, se deitou sobre minhas pernas e me olhou lá debaixo, — Você sempre sabe como as pessoas estão, Heitor, não precisava me perguntar, disse ela rindo. Isso é verdade, mas temos de seguir alguns padrões sociais, eu acho. — É eu sei, está difícil de achar alguma animação em meio a tanta indiferença também? O que houve? — Preciso de motivos a menos para ficar triste e revoltada, ou motivos a mais para ficar feliz.  Temos apenas dezessete anos, por que estamos nesse estado? Disse Caroline, abaixando novamente as mangas do seu suéter cinza. Eu a olhei, olhei suas mãos, seus cabelos e depois, encostei a cabeça e olhei para o teto, — Acho que não sou a melhor pessoa para te ajudar com isso, meu bem, mas a um tempo eu parei de me fazer essa pergunta, eu também não entendia o porque de estarmos como estamos sendo tão novos. — E por que estamos como estamos? Disse ela, me olhando. — Acho que primeiro de tudo, você deveria se perguntar, com base na nossa realidade atual, e dos nossos últimos anos, se temos ou não motivos. Você, apesar de ter sido criada em uma casa com seu pai e sua mãe presentes, nunca foi realmente cuidada, ninguém nunca perguntou como tinha sida seu dia na escola, como você estava, do que precisava, estou errado? Ela balançou a cabeça, negativamente. — Para nós, tão novos quanto agora, foi preciso se cuidar e se suprir em questões que nossos pais deveriam cuidar e suprir. Somos o nosso próprio apoio emocional, nosso ombro e nossos ouvidos para nossos problemas, e isso exige muita maturidade, até por isso que naquela idade é justamente os nossos pais que cuidam disso para a gente. Nossa maturidade foi preciso crescer além da nossa realidade como criança, e como adolescentes e logo mais como adultos, e isso sendo uma criança, nos consome e nos cansa. Nós somos a criação de um pequeno adulto, de uma pequena independente, de uma criança solitária, de uma criança sem uma mãe, apesar de ela estar todos os dias na mesma casa que você. Nós, Caroline, somos crianças que vivem externamente como crianças, mas internamente, somos as vezes, tão adultos quanto a sua própria mãe. E isso não é algo de se orgulhar, pois temos apenas dezessete anos, precisamos de alguém que nos ame, e que nos compreenda. Olhei para Caroline em meu colo, e seus olhos estavam úmidos, fitando-me atentamente, e eu os olhei. — Você precisa de amor, Caroline, nós precisamos. Precisamos ser ouvidos, não temos carinho, não temos a quem correr após um dia mesmo que minimamente cheio, nós estamos sozinhos, mas estamos sozinhos na hora errada, na fase errada... De certa forma, é por isso que nessa idade as pessoas fazem tanta besteira. Elas bebem, como a gente, elas fumam, elas transam loucamente. Todas essas coisas são resultados da falta de algo dentro de casa, na maioria das vezes.

A levantei, e me levantei em seguida, a abracei e começamos a dançar, estava tocando I know it's over do The Smiths, e Caroline estava chorando, eu limpei seus olhos, tomei meu vinho e dançamos... Dançamos e dançamos, a noite ficou mais noite, a escuridão tão escura quanto antes. Era quase meia-noite, eu estava na cozinha, pegando a última garrafa de vinho, fui até o sofá e Caroline havia dormido, eu abri a garrafa e dei um baita gole, coloquei a garrafa em cima do balcão ao lado do sofá. Fui até o sofá e levei Caroline para minha cama, a cobri, dei boa noite e a abracei. Caroline abriu lentamente os olhos, — Nós realmente não temos amor, não é Heitor? — Não meu bem, não temos, disse eu, tirando seus anéis e os colocando na cabeceira da cama. — Você está certo, Heitor, mas não esqueça que pelo menos nós, somos capazes de nos ajudar com a falta disso, eu sempre estarei aqui para você, sabe disso, não sabe? — Agora eu sei, Benzie (sobrenome de Caroline). Eu também estou aqui, mas nunca sozinho, tenho sempre o meu vinho, ele também estará te esperando, disse eu sorrindo. Caroline sorriu, e voltou a dormir. Voltei para a sala de estar, puxei a garrafa de vinho e em alguns minutos ela havia esvaziado, era verdade, pessoas como nós estavam escassos de amor, de carinho e de compreensão. A vida havia se tornado amarga para nós quando ela devia estar vivamente colorida, éramos apenas crianças, a realidade do mundo não poderia ser a nossa, precisávamos de proteção... Sou um resquício da criança que não sonhava com nada, que não queria ser nada, a não ser amado, ter a compreensão necessária para finalmente ser alguém, não uma metamorfose ambulante desde criança. E esse resquício não significa que hoje não sou assim, e sim que hoje sou capaz de ser um metamorfose ambulante com a possibilidade de virar uma, ou duas garrafas de vinho de vez em quando. Talvez ela esteja certa, é bom ter alguém para contar as vezes... Mesmo que amanhã eu acorde como ontem.


𝑴𝒖𝒓𝒊𝒍𝒐.

[Republicação: Postagem original em 01/11/2022, no Blog Thenowhereroom, link do post original: Caroline, e Um Momento de Ponderação]