Uma Carta para Meu Grande Amor




27 de março de 2023

27 de março de 2023




Molharei nossos corpos, encherei nossos olhos de lágrimas, odiarei a nós dois, sentirei por mim e por você. Mas eu seria capaz de me queimar apenas por você, eu decepcionaria a mim mesmo apenas por você. Eu abriria as janelas do meu quarto escuro para você, descobriria meus pés por você. Eu quebraria meus fones de ouvido, excluiria minhas playlists, deixaria de ouvir música e descontar minhas dores em canções atrás de canções, só para ouvir sua voz todos os dias, mas teria que ser todos os dias, eu preciso da certeza, da absoluta delas, das mais amargas das certezas, as nauseantes, roxas de dor e maciças de sinceridade.

Eu tentarei ao máximo fechar as ruas por nós, abrir os bares, alargar as ruas para as suas pernas, esvaziar a humanidade, talvez odiar menos, talvez amar mais, possivelmente me arrepender cada dia menos... Eu viveria mais por você. Eu provavelmente desfaço de meus costumes pelos seus, mas com toda a certeza eu mentiria por você, sobre minhas dores, falaria a única possível, sensata, dolorosa e real verdade que você precisasse ouvir e sem ao menos hesitar. Mas por que a falta de certeza em certos ganhos? Bom, eu não posso lhe prometer evoluções próprias sem a minha vontade de evoluir, sem acreditar em minhas necessidades e sem independer das minhas falsidades. Eu posso tentar te dar o mundo , mas apenas se eu não estiver neste mundo, pois se o que você quer sou eu, devo sentir muito por você, mas nada nunca me teve, nada nunca me acessou, me entendeu, me viu, me ouviu, me tocou ou me odiou. Os pés inimigos nunca pisaram no meu território, os maus olhos nunca me viram. Sou um maldito bilontra, sou encantável, em alguns momentos admirável, e isso não é egocentrismo ou excesso de amor próprio, é entender que isso ocorre com a grande massa em pequenos momentos, e entender que mesmo não querendo, faço parte dela.

Lembro-me daquela nossa noite meu bem, nós dançávamos e deslizávamos pelo chão daquela minha cozinha, as carnes gritavam na frigideira e o vinho exalava por nossos poros, seus olhos cintilavam enquanto você caía na gargalha com mais uma daquelas besteiras que solto sem mesmo perceber, eu a admirava, explicitamente. Nunca a escondi isso, eu olho seu rosto sujo de café pela manhã, sorrio quando você movimenta a caneta diante do papel, quando mexe em seu cabelo, quando seus pés escorregam pelas escadarias da cidade. Eu nunca a estranhei, não é lindo??? A paixão mascara erros, defeitos, imperfeições, você literalmente ama cegamente, nadando diante de belezas orgânicas e sintéticas. Você deitava em meu peito pelas madrugadas enquanto eu me mantinha em um natural pesadelo, suando insônia e tristezas, você ainda me amava, poxa era mágico, era calmo, e me falta calma, me faltava calma.  

Teve o seu pedido de casamento, não era um de verdade, mas era um pedido real. Lhe entreguei um anel velho e amado por mim, me ajoelhei e enviei o anel diante das minhas mãos para o seu dedo, nós rimos e nos beijamos, mas eu a queria como minha esposa e como mãe do filho que não quero ter.

Eu sentia muito por você, pois você me amava, hoje em dia as coisas não estão as melhores para nenhum de nós, mas você seguiu em frente como me prometeu, assim como eu prometi. Eu ainda te amo, e não sei sobre você quanto a isso, mas também pouco me importa, pois te amar sempre me foi o suficiente, mesmo que isso não seja a mesma coisa para ti.

Acho que atualmente seus abraços me cairiam bem, suas verdades também, mas como bem sabe, privilégios são privilégios, não me encontro com essa disponibilidade atualmente, tristemente ainda quero essas possibilidades, e isso me mata um pouco todos os dias, mas acho que está tudo bem... Ou assim me engano em achar.

Em minhas últimas páginas do meu diário, lembro de falar de você:

"As mãos dela me fazem falta, lhe confesso querido amigo, mas acredite, não valeria a pena amá-la novamente, as coisas acabaram, e de uma forma boa. Acho que não vale a pena estragar memórias trancadas por carências atuais, afinal, as vezes quando algo acaba, já está de bom tamanho."


M,